Esta semana minha casa foi invadida por imagens e sons de competições dos Jogos Pan-Americanos 2015, que acontecem no Canadá. Centenas de pessoas competindo no máximo de sua capacidade física, de seu equilíbrio emocional, de sua força de vontade interior. Minha mãe e eu nos emocionamos incontáveis vezes vendo a garra daqueles que se consagraram campeões, os medalhistas de nosso país que nos trazem sentimentos intensos de alegria, orgulho. Combinado a isso no Domingo de madrugada, uma das equipes brasileiras da FLL se consagrou Campeã Mundial no circuito Asiático da competição.

Das três etapas Mundiais da FIRST LEGO League deste ano o Brasil venceu duas – no circuito Africano a equipe SESI Robonáticos, da cidade de São Paulo, foi Champions Award, assim como a equipe SESI Robotic Generation, da cidade de São José do Rio Preto, que venceu no circuito Asiático. Já na etapa Mundial dos Estados Unidos quem venceu foi a equipe Fast and Curious, do Líbano. E o que estas equipes tem em comum? O que leva uma equipe ser Campeã Mundial da FLL? Esta pergunta já me fizeram mais de 3 vezes, então hoje tentarei responder do meu ponto de vista.

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Por sorte, eu tive o prazer de acompanhar de perto o trabalho destas três equipes na temporada World Class. Começando por aquela se que consagrou vencedora nos Estados Unidos, a equipe Libanesa Fast and Curious é de um colégio particular que nada tem de luxo ou tratamento especial para estas crianças. Pelo contrário, a salinha de treino é dividida com outras três equipes do colégio, que se revezam nos treinos. Quando dois times treinam juntos, não tem espaço para as crianças ficarem na sala, como neste dia em que o aluno Wissam Mlb está em cima da mesa para regular seu robô. Os custos das viagens são divididos entre pais dos integrantes e o colégio que estudam. E para economizar, eles levaram de brinde na competição nos EUA folhas de uma árvore típica do Líbano.

A equipe Robonáticos, a segunda a escrever seu nome no hall dos campeões mundiais deste ano, vem do bairro do Ipiranga, na grande 11149454_919591041431270_1075213686576905738_nSão Paulo. É uma escola com instalações antigas e o espaço também é reduzido para as crianças. Não tem sala de treino, utilizam o Laboratório de Informática da escola juntamente com todas as outras turmas de alunos para treinarem. As crianças, de famílias humildes, vão de ônibus circular para a escola, algumas delas pegam mais de duas conduções para estarem presentes no treino. E há membros que além de estudarem, trabalham para ajudar os pais em casa, como o aluno Felipe Oliveira Silva, que trabalha meio período em uma empresa de marketing. Os membros desta equipe nos mostram reais valores de vida, e inspiram a todos que tem o prazer de conhecê-los. Os custos de suas viagens só foram possíveis graças ao apoio que o Sr. Paulo Skaf deu aos times do SESI – Serviço Social da Indústria, classificados para as etapas internacionais.

E a terceira equipe campeã tem uma realidade nada diferente, o prédio d944616_705864769440591_251894883_nesta pequena escola de São José do Rio Preto é dividido com uma outra escola do Município. Com instalações antigas, o Laboratório quase não tem espaço para o time SESI Robotic Generation, então as crianças muitas vezes treinam no pátio, com todo o barulho, distração, luz do sol e diversos outros fatores que aprendem a lidar com naturalidade. Revezando ambientes de treino, as crianças encontram formas de trabalhar e os meninos carregam com frequência a enorme mesa de robótica do pátio para o laboratório e vice versa. Com simplicidade e humildade, este time se supera e nos surpreende a cada nova temporada FLL.

Se nada tem de especial nas realidades destas três equipes, a pergunta que surge é: O que faz um time ser campeão mundial? A resposta não é simples, mas tenho alguns palpites. O primeiro deles é a cultura da robótica que é estabelecida nas escolas. Estas crianças não escolhem participar da robótica por privilégios ou status, para eles, estar no time é algo maior, é fazer parte de uma família, é ter oportunidade de trabalhar em algo que acreditam, é estarem felizes por estarem ali. Durante as temporadas, técnicos, mentores e alunos desenvolvem trabalhos exemplares, mostrando à comunidade escolar que sabem aplicar o tempo disponível que tem em projetos legais, em coisas fantásticas. Assim, a Robótica contagia as crianças de cada escola, que sonham em fazer parte daquela equipe.

E este é outro dos meus palpites para que uma equipe tenha bons resultados nos campeonatos: concorrência aliada ao amor à robótica. Quando uma equipe é formada apenas por alguns alunos que mal desejam estar ali, o trabalho tende a ser regular. Quando são forçados a serem o melhor de si mesmos, senão serão substituídos com facilidade (já que veem outros amigos também dando o melhor de si), a tendência aos trabalhos realizados com excelência é muito maior. Quando amam o que fazem e são responsáveis pela equipe, não há dia ruim para treinar, nem hora ruim. Estas crianças se dedicarão todos os dias, inclusive em feriados e finais de semana, afinal, a Robótica é grande parte da vida deles.

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E outro fator que ocorre quando uma cultura de robótica é estabelecida nas escolas é a colaboração. Ex-integrantes da equipe e alunos que almejam serem os próximos integrantes também auxiliam a equipe oficial, contribuindo com o que podem – recortando papéis, colando coisas, varrendo a sala, organizando peças, etc. Equipes como a da cidade de Ourinhos, SESI Robotic’s School, Campeã Nacional em 2013, e a equipe de São Caetano do Sul, AC/DC/AG, Campeã Nacional de 2014, são excelentes exemplos a serem seguidos.

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Para mim, não é a quantidade de treino, nem as condições ideais que dita quais serão os próximos vencedores de um campeonato, mas sim a forma como utilizam o tempo e o espaço. Sejam sinceros: os treinos de sua equipe têm metas diárias? Como elas são estabelecidas? Onde elas são colocadas? – Vocês podem utilizar lousas ou até mesmo folhas para marcar as responsabilidades de cada um, dividindo tarefas e checando se estão sendo cumpridas nos prazos.

Qual é a organização de vocês? Os materiais estão dispostos de maneira eficiente e produtiva? Como dito no post do Instagram do Aprenda Robótica da semana passada, tente pensar como um time na hora de salvar um arquivo, guardar uma garra ou organizar as pastas do Projeto de Pesquisa. Coloquem-se no lugar uns dos outros, pensando coletivamente.

Como aprendem coisas novas? Vocês esperam o seu técnico e mentor trazer as respostas até você ou busca sozinho? ComoDSCN2585 você cria novas garras? Como procura por soluções existentes no tema de seu projeto? Como curiosidade, na equipe Robotic Generation os alunos Guilherme Assis e o Pedro Nolasco, que constroem o robô, sabem tanto sobre montagens que ensinam seu técnico e os demais Analistas da rede SESI São Paulo. De onde eles tiram tantas informações a respeito de montagens? Pesquisando na internet! Sozinhos, estes alunos conseguiram ir além dos padrões atuais de montagem com LEGO e expandiram seus horizontes de uma maneira singular. A equipe Fast and Curious nem técnico teve, treinaram sozinhos durante toda a temporada World Class, já que seu técnico mora em Dubai, mais de 500 km de distância deles. Tentem buscar a autonomia sempre!

E para fechar, acredito que um dos fatores que torna uma equipe campeã é a competição em si. Equipes do SESI São Paulo, por exemplo, competem primeiro em um Torneio Interno em suas escolas, (algumas unidades chegam a reunir mais de 100 alunos competindo por 6 vagas no time oficial de cada unidade). Na etapa Regional do Torneio de Robótica, quase 200 equipes do SESI competem por 40 vagas para a Etapa Estadual da competição. Nesta Etapa, 40 equipes de todo o Estado de São Paulo competem por 7 vagas para o Campeonato Nacional da FLL. Assim, ao chegarem à etapa Nacional estes times já aperfeiçoaram seus erros, já refletiram sobre seus acertos e estão preparados para explorarem o melhor de sua equipe. Tentem realizar Torneios entre equipes de sua região. Apresentem-se várias vezes, buscando aprender onde podem melhorar, quais fatores de suas apresentações de Core Values, Pesquisa e Robô ainda não atingiram um alto nível de trabalho.

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O segredo para levantar um troféu de Champions Award numa competição FLL chama-se trabalho. Os nicknames são competência e DSCN2638dedicação. Ame o que você faz e transforme este amor em realizações. Nuno Cobra, treinador do piloto de Fórmula 1 Airton Senna dizia: “É a emoção que faz a tua vida”, no livro “A semente da vitória”. Utilizem os bons exemplos como inspiração e almejem o melhor. Sintam o melhor, sendo os melhores que puderem ser. Nada de ficar se lamentando ou criticando aqueles que hoje estão no pódio, afinal, ele é livre – amanhã ele pode ser seu.

Fiquem com meu carinho, beijo grande e até a próxima semana!

 Paulinha.